
O trabalho elaborado por Bruno Vieira consiste na construção sistemática de um grande número de cadernos, confeccionados artesanalmente. A técnica artesanal de encadernação é utilizada para o desenvolvimento de uma obra que – podendo ser compreendida como instalação, como múltiplo, como arte relacional ou como livro de artista – deambula entre os limites da arte e do artesanato. Os cadernos, de diversos tamanhos e encapados com diferentes estampas, permanecem vazios em seu interior e acumulam-se, apontando para uma dimensão de espaço puro, de página em branco, de vazio a espera de um preenchimento. Assim, uma técnica artesanal é utilizada para aludir a uma questão fundamental do âmbito das artes visuais: o momento crucial que precede a criação. Toda arte, antes de se configurar como obra, nasce de uma tábula rasa, de um nada, de um espaço fértil que se abre em sua nulidade para possibilitar um preenchimento, seja através de imagens, de palavras ou de sentido. A multiplicidade de cadernos em branco de Bruno Vieira explicita cinicamente que toda dimensão artística, e talvez ainda mais profundamente toda dimensão humana, está essencialmente referida a um vazio, a uma falta de sentido, a um nada, a uma casca oca que subjaz na liberdade de poder ou não poder ser ocupada.
Débora Pazetto
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